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Água de reúso, solução para a indústria

A maior escassez hídrica das últimas décadas afetou inicialmente o Estado de São Paulo e agora se estende para os demais estados do Sudeste. Na região metropolitana de São Paulo, o governo do Estado, por meio da Sabesp, está encaminhando uma série de soluções para ampliar a disponibilidade hídrica, incluindo plantas de reúso de água e a transposição do rio Paraíba do Sul.

O aumento da disponibilidade hídrica, porém, dará prioridade ao abastecimento humano. Em caso de escassez hídrica prolongada, a indústria será a primeira prejudicada.

A ausência de água pode representar a redução na capacidade produtiva, corte de empregos e renda, entre outros prejuízos sociais e econômicos. Na perspectiva empresarial, a escassez hídrica representa risco para o negócio, a ser considerado e mitigado pelos comitês, instituições financiadoras e conselhos de administração. É preciso contratar um seguro para esse risco.

Na região metropolitana de São Paulo, o consumo industrial de água estimado é de 10,76 m3/s. Desse total, menos de 10% é fornecido pelas concessionárias de água. Os 90% restantes são captados diretamente pelas indústrias de rios e mananciais da região. Uma pequena parte é captada de poços (0,41m3/s).

A captação direta dos mananciais pela indústria depende de uma outorga concedida pelo Departamento de Águas e Energia Elétrica. A legislação estabelece, entretanto, que a outorga poderá ser suspensa parcial ou totalmente, em definitivo ou por prazo determinado, em caso de situações de calamidade ou de atender a usos prioritários.

Recentemente, o governo do Rio de Janeiro anunciou que passará a rever as outorgas concedidas a grandes indústrias. O mesmo caminho deve ser seguido pelos demais governos dos Estados do Sudeste.

A solução para essa situação passa pela gradual substituição da água de mananciais por água de reúso. Dois modelos podem ser adotados.

O primeiro consiste em tratar os efluentes gerados pela indústria e torná-los água para consumo.

A planta da empresa Vallourec-Sumitomo em Jeceaba (Minas Gerais) é um exemplo de sucesso. Aproximadamente 90% da água que consome é gerada a partir dos efluentes produzidos pela planta.

O segundo modelo consiste em reusar o esgoto doméstico tratado nas concessionárias de água e fornecer a um conjunto de indústrias por meio de redes de distribuição.

O principal projeto dessa natureza no hemisfério Sul está em São Paulo. É o Aquapolo Ambiental, com capacidade para produzir 1 m3/s a partir do esgoto tratado na Estação de Tratamento de Esgotos da Sabesp no ABC paulista.

O projeto atende ao Polo Petroquímico de Capuava e pode servir outras indústrias da região. Pelo arranjo contratual o polo petroquímico tem garantido o fornecimento pelos próximos 38 anos. Além disso, com ajustes adicionais, a água pode se tornar potável e ser lançada na rede para consumo humano.

É natural que projetos dessa natureza envolvam investimentos e custos adicionais. Em São Paulo e em outros Estados, são poucas as bacias que cobram pelo uso da água. Quando há cobrança, o valor é baixo e não inibe o consumo excessivo.

Com a perspectiva de prolongamento da escassez atual, a aposta na captação superficial, barata, se mostra arriscada. Uma eventual revisão das outorgas ou mesmo o colapso da fonte de captação podem inviabilizar a operação da indústria.

O reúso de água é o seguro mais efetivo e sustentável para esse risco. É urgente que as indústrias revejam suas fontes de consumo de água e passem a voluntariamente reduzir sua dependência de mananciais superficiais. Essa estratégia não só melhorará a sustentabilidade ambiental mas garantirá a sustentabilidade econômica e a perenidade do negócio.

*Gesner Oliveira, 58,ex-presidente do Conselho Administrativo de Defesa Econômica e da Sabesp, é professor de economia (FGV) e sócio da GO Associados

*Fernando Marcato, 37,é professor de direito na FGV-SP e sócio da GO Associados

*Pedro Scazufca, 34,é mestre em economia pela FEA-USP e sócio da GO Associados

Artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo, em 05/03/15

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