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Crise da água respinga na energia

Água e energia estão intimamente interligadas. No Brasil, é fácil perceber essa relação. Cerca de 68% da energia elétrica vem das hidrelétricas. O lado positivo é o caráter não poluente dessa fonte energética. Porém, como dependente do regime hídrico, e, consequentemente, de fatores fora do controle humano, a matriz elétrica brasileira está sujeita a vulnerabilidades. Em tempos de seca, o risco de racionamento de energia elétrica aumenta. É justamente por um desses períodos complexos que o Brasil passa. Se as águas de março não chegarem e o nível dos reservatórios continuar caindo, há chances razoáveis de racionamento de energia elétrica, conforme apontam técnicos do setor.

A situação é preocupante. Em janeiro e fevereiro, meses tradicionalmente chuvosos, o nível da chuva ficou, respectivamente, em 54% e 39% da média histórica. A situação não tende a melhorar neste mês, em que se comemora o Dia Mundial da Água, que terá como tema neste ano a relação da água com a energia. O Operador Nacional do Sistema Elétrico projeta para março a afluência da quantidade de água equivalente a 67% da média de longo termo habitual no período.

Treze anos após o racionamento que marcou a população do País, o sistema elétrico brasileiro está mais preparado para lidar com a escassez da água. Há mais usinas térmicas, que não dependem do regime das chuvas. Todavia, o País consome mais energia hoje. Além disso, a opção, nos últimos anos, pela redução do volume útil dos reservatórios construídos nas hidrelétricas acentua a dependência da boa vontade de São Pedro. Especialistas apontam que, atualmente, o nível mínimo dos reservatórios em construção permite geração de energia por cinco meses, antes eram planejados para cinco anos.

A redução nos volumes úteis dos reservatórios é uma opção para diminuir o impacto ambiental das hidrelétricas. Porém, para suprir a demanda por energia, aumenta-se o uso de termelétricas, que são bem mais poluentes e responsáveis por emissões de gases de efeito estufa, que contribuem para as mudanças climáticas. A energia térmica também é mais cara.

O uso de geração térmica em vez de hidrelétrica encarece no mínimo cinco vezes o custo da energia. Porém, esse aumento não foi repassado ainda para o consumidor cativo residencial e o pequeno consumidor industrial e comercial. A indústria eletrointensiva, como a de cloro-soda, que é um consumidor livre com contratos negociados baseados em preço e não tarifas já vem sentindo esse impacto, gerando perda de competitividade com efeito em cadeia na economia.

Resolver o problema de energia do Brasil passa necessariamente pela questão da gestão da água. É fato que a decisão de tornar o País menos dependente da energia hidrelétrica com o uso das térmicas, eólicas ou fotovoltaicas é acertada. Se essa escolha não fosse tomada, o Brasil estaria, possivelmente, em uma situação bem pior agora. Porém, é preciso investir em fontes menos poluentes e mais baratas que as térmicas. Do outro lado, é necessário que o sistema se antecipe às variações do clima. O planeta entra em uma fase de eventos extremos e períodos de seca se intensificarão. Uma solução seria fortalecer os órgãos responsáveis pelo gerenciamento da água e incentivar a gestão compartilhada. Água e energia caminham juntas e devem ser prioridades constantes de qualquer governo.

*Martim Afonso Penna é diretor-executivo da Abiclor (Associação Brasileira da Indústria de Álcalis, Cloro e Derivados)

Fonte: Brasil Econômico, 21/03/2014

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