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Mudança de paradigma e segurança hídrica

Artigo de Benedito Braga*

A região Sudeste enfrenta sua pior crise hídrica da história. Em particular, a área do sistema Cantareira não tem um verão como 2015 desde que os dados de chuva começaram a ser registrados pelo Instituto Agronômico de Campinas, há 125 anos.

Na primavera de 2014, não se imaginava que seria possível uma situação ainda pior em 2015. Entretanto, a vazão média afluente ao sistema em janeiro deste ano foi 40% menor que janeiro de 2014 e somente 13% da vazão média para o mês.

Isso posto, trata-se de aprender com a sabedoria chinesa que nos ensina que toda crise representa uma oportunidade para inovar, mudar paradigmas e, principalmente, para implementar soluções sustentáveis de longo prazo. É o que o governo do Estado de São Paulo está fazendo: sem perder de vista o passado, é para frente que se anda.

O enfrentamento da crise passa por um conjunto de ações para aumentar a segurança hídrica a curtíssimo (2015), médio (2016-2020) e longo prazo (2020-2050). Essas ações devem aumentar a oferta para reduzir o risco hidrológico e, ao mesmo tempo, promover uma gestão eficiente da demanda.

Algumas ações de médio prazo previstas no Plano Macrometrópole Paulista (área que inclui as regiões metropolitanas de São Paulo, Campinas, Baixada Santista e Vale do Paraíba, além dos aglomerados urbanos de Jundiaí e Piracicaba) foram antecipadas para 2015.

É o caso do uso do braço do rio Grande na represa Billings, que já provem água para o ABC Paulista desde 1958 (6 m³/s). No plano emergencial, mais 4 m3/s serão transferidos como reforço para a represa Taiaçupeba, no Alto Tietê.
Ainda para o Alto Tietê, prevê-se a captação de 2,1 m3/s no rio Itatinga para a represa Jundiaí e a utilização de 0,8 m3/s do rio Guaió para a represa Taiaçupeba. No início de fevereiro, mais 0,5 m³/s foram entregues ao sistema Rio Claro/Alto Tiete pela adutora do rio Guaratuba.

No sistema Guarapiranga será aumentada em 1 m3/s a sua capacidade de tratamento de água. Além disso, será feita a captação de mais 2 m3/s do Alto Juquiá para dentro da represa Guarapiranga, juntamente com mais 1 m³/s, que será captado no rio Capivari.

São, portanto, mais 10,4 m³/s que irão contribuir para minimizar o impacto da atual situação hidrológica durante o ano de 2015.

No horizonte de médio prazo, até 2018, serão mais 16,3 m³/s através da interligação das represas do Jaguari-Atibainha (5,1 m³/s), transposição do rio São Lourencinho (6,4 m³/s), estações de reúso potável indireto (3 m³/s) e utilização das águas do rio Itapanhaú (2,8 m³/s).

A longo prazo estão em estudo duas alternativas. Uma trazendo as águas do rio Paranapanema e outra trazendo as águas do rio Juquiá. As duas representam o atendimento da demanda de água para além do ano de 2050 de forma sustentável.

Independentemente dos horizontes de tempo, devem ser alterados de imediato os padrões de consumo doméstico, industrial e agrícola. Devem ser ampliados os esforços no controle de perdas.

Devem ser considerados a reciclagem e o reúso para fins potáveis e não potáveis, equipamentos economizadores de água nos domicílios, na indústria e na agricultura. Novos códigos de obras e exigências para as novas edificações com a finalidade de reduzir o consumo nas áreas urbanas precisam também ser implantados.

A Secretaria de Saneamento e Recursos Hídricos, por meio do DAEE (Departamento de Águas e Energia Elétrica) e da Sabesp, está agindo para coibir a retirada de água dos rios por usuários não autorizados e priorizando o uso para abastecimento humano. Está também aumentando a segurança hídrica por meio de obras emergenciais, e de médio e longo prazo.

O momento é grave e os riscos são grandes. A colaboração de toda a população economizando água ao máximo é essencial para que, em conjunto com as ações de governo, possamos superar essa crise.

*Benedito Braga é secretário de Saneamento e Recursos Hídricos do Estado de São Paulo e presidente do Conselho Mundial da Água.

Artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo em 11/02/15

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