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Mudanças climáticas aumentarão riscos de escassez de água

Um novo estudo publicado pelo Instituto Potsdam para Pesquisa de Impacto Climático (PIK) no periódicoProceedings of the National Academy of Sciences sugere que as mudanças climáticas provavelmente colocarão 40% a mais de pessoas em risco de escassez absoluta de água.

Segundo a pesquisa, que usa dados do Projeto do Modelo de Impacto Intersetorial e de Intercomparação (ISI-MIP), atualmente entre 1% e 2% da população vivem em países com escassez absoluta se água. O crescimento populacional, combinado com as mudanças climáticas, pode aumentar esse índice para até 10% para cada três graus Celsius de aquecimento global.

“O aumento mais acentuado da escassez global de água pode acontecer entre dois e três graus de aquecimento acima dos níveis pré-industriais, e isso é algo a ser experimentado dentro das próximas poucas décadas a menos que as emissões sejam cortadas logo”, colocou o autor Jacob Schewe, do PIK.

“Em particular, as projeções médias de um aquecimento global de 2ºC acima do atual
(aproximadamente 2,7ºC acima dos níveis pré-industriais) levarão a aproximadamente 15% da população global com um decréscimo severo nos recursos hídricos e aumentarão o número de pessoas vivendo sob escassez de água absoluta em outros 40% em relação ao efeito do crescimento populacional sozinho”, escreveram os autores.

Se isso já é alarmante, alguns modelos apontam que a situação pode ficar ainda pior, e o número de pessoas em escassez absoluta de água poderia aumentar 100% em certos cenários. Isso significa que, quando as temperaturas globais subirem 2ºC, pode haver entre 40% e 100% a mais de pessoas vivendo em lugares sujeitos à escassez de água extrema.

Climatologistas acreditam que esse aumento de 2ºC pode ocorrer até a metade do século, em menos de 40 anos, o que pode não apenas aumentar a miséria, mas também os conflitos internacionais. A ONU teme que conflitos a respeito de territórios ricos em água e infraestrutura de transporte possam se intensificar à medida que os recursos ficam cada vez mais escassos.

“É sabido que a escassez de água aumentará, mas nosso estudo é o primeiro a quantificar a participação relativa que as mudanças climáticas têm nisso, se comparadas – e somadas – ao aumento que é simplesmente devido ao crescimento populacional”, continuou Schewe.

A escassez de água absoluta é definida como menos de 500 metros cúbicos disponíveis por ano e por pessoa – um nível que exige técnicas e gestão de uso de água extremamente eficientes a fim de que essa quantidade seja suficiente, o que não acontece em muitos países.

Para se ter uma ideia, a média global de consumo de água por pessoa ao ano é de cerca de 1,2 mil metros cúbicos, sendo maior ainda em muitos países industrializados. Como as mudanças climáticas não são uniformes no mundo inteiro, as diferenças regionais de seus impactos na disponibilidade de água são enormes, observaram os pesquisadores.

Por exemplo, de acordo com o estudo, o Mediterrâneo, o Oriente Médio, o sul dos Estados Unidos e o sul da China provavelmente terão uma grande diminuição de água disponível. Já o sul da Índia, o oeste da China e partes do leste da África podem ter aumentos substanciais na disponibilidade de água.

“A escassez de água é uma grande ameaça para o desenvolvimento humano, já que, por exemplo, a segurança alimentar em muitas regiões depende da irrigação – a agricultura é o principal usuário de água no mundo”, comentou Qiuhong Tang, da Academia Chinesa de Ciências.

“Ainda assim, um aumento da precipitação também é desafiador – a água adicional pode causar alagamentos, inundações, mau funcionamento ou falha das infraestruturas relacionadas à água”, acrescentou Qiuhong.

Além de manter a população humana e o gado, muitos processos industriais, como o fracking, e muito tipos de produção consomem quantidades consideráveis de água, indicando também o custo econômico desse recurso natural.

O estudo foi desenvolvido a partir de uma série de 11 modelos hidrológicos globais, combinados com cinco modelos climáticos globais, uma simulação produzida em colaboração com muitos grupos de pesquisa de todo o mundo.

“De uma perspectiva de gestão de risco, é muito claro que, se as mudanças climáticas antropogênicas continuarem, colocaremos em risco a base da vida para milhões de pessoas, mesmo de acordo com os cenários e modelos mais otimistas”, afirmou Pavel Kabat, do Instituto Internacional para Análises de Sistemas Aplicados.

Contudo, Kabat diz que os pesquisadores ainda devem analisar como a escassez de água evoluirá nos diferentes setores, como agricultura, indústria e energia, e como a tecnologia de mitigação e práticas pode ajudar.

Autor: Jéssica Lipinski – Fonte: Instituto CarbonoBrasil, publicado em 18/12/2013

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